
Melina Manasseh, do coletivo de Direitos Humanos da FEPAL (Federação Árabe Palestina do Brasil), denunciou durante o IV Congresso da Intersindical Central da Classe Trabalhadora, a política externa dos Estados Unidos que mantém, há décadas, apoio estrutural a Israel — independentemente de governos democratas ou republicanos, como um “experimento cruel de estaticídio”.
“Trata-se de algo mais profundo, mais estruturado e mais brutal: um processo de destruição sistemática de um Estado.
Gaza vive hoje um colapso quase absoluto. Cerca de 90% de toda a infraestrutura foi comprometida. Hospitais deixaram de existir: dos 36 que funcionavam no território, nenhum permanece.
A devastação ultrapassa qualquer limite humanitário. Há relatos de crianças vivendo em tendas improvisadas sendo mordidas por ratos, em meio à fome, ao deslocamento forçado e à ausência total de condições sanitárias.
Sob os escombros, corpos seguem soterrados — mais de 11 mil pessoas ainda não foram resgatadas, contribuindo para um cenário descrito como de “cheiro insuportável de morte” por toda parte.
Números que evidenciam o extermínio
Os dados apresentados escancaram a dimensão da tragédia: 84.459 pessoas mortas identificadas , sendo 18.872 crianças entre as vítimas, Há ainda cerca de 4 mil crianças desaparecidas e mais de 12 mil crianças amputadas.
A destruição também atinge o futuro da população: houve uma queda de 41% nos nascimentos, com estimativa de 55 mil vidas que deixarão de nascer. Ao mesmo tempo, cerca de 5 mil bebês prematuros que nasceram não têm acesso à estrutura necessária para sobreviver.
Para os que permanecem vivos, as perspectivas são igualmente devastadoras: a expectativa de vida despencou para 36 anos entre homens e 44 entre mulheres.
Colapso da saúde e crime internacional
A eliminação de profissionais de saúde e a destruição de hospitais configuram, segundo normas internacionais, crimes de guerra. A própria ONU estabelece que trabalhadores da saúde e da comunicação devem ser protegidos justamente para garantir assistência e registro dos acontecimentos.
Ainda assim, Gaza registra hoje cerca de 20 mil pessoas doentes sem qualquer acesso a tratamento.
Um projeto histórico de dominação
Para Manasseh, o que ocorre não é episódico, mas parte de um processo histórico mais amplo incluindo a devastação ambiental e agrícola local, a violência de gênero como instrumento de dominação e a destruição das estruturas civis essenciais.
Trata-se de um modelo colonial que não apenas ocupa território, mas destrói as condições de existência de um povo.
Boicote como forma de resistência
Diante desse cenário, a fala aponta caminhos de ação através da sociedade civil, especialmente por meio do consumo consciente e do fortalecimento de campanhas como o BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções).
Entre as recomendações do uso do consumo como arena política estão: evitar empresas associadas ao financiamento ou apoio ao Estado israelense, pressionar pelo congelamento de ativos internacionais e fortalecer economias locais e práticas alimentares autônomas.
“Ninguém sabe o que vem a seguir”
A incerteza domina o horizonte. Para além dos números, o que se evidencia é a tentativa de inviabilizar completamente a vida em Gaza — não apenas no presente, mas também no futuro.
A denúncia de “estaticídio” sintetiza esse processo: não se trata apenas de matar pessoas, mas de apagar um povo enquanto sujeito político, social e histórico.
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