
A Plenária Nacional da Intersindical, ocorrida no dia 11 de agosto, debate os grandes desafios da conjuntura atual com a militância de 15 estados da Federação e elaborou a seguinte síntese política.
1. A NOVA DINÂMICA IMPERIALISTA E A DISPUTA GLOBAL DO CAPITAL
A análise de conjuntura da Intersindical parte da constatação de que o capitalismo global atravessa uma fase de profunda imprevisibilidade e reestruturação geopolítica. Superada a bipolaridade tradicional da Guerra Fria, o cenário contemporâneo é marcado pela ascensão de um mundo multipolar e pela acirrada disputa entre o Norte Global — liderado pelos Estados Unidos — e o Sul Global, com destaque para a expansão econômica e tecnológica da China e o fortalecimento dos BRICS.
Nesse contexto, a figura de Donald Trump e o avanço da extrema-direita nos EUA não devem ser lidos como fenômenos isolados ou irracionais, mas sim como a expressão direta dos interesses de uma fração agressiva do grande capital estadunidense. Houve uma inflexão decisiva na qual o capital financeiro tradicional se articulou ao capital agrário (agronegócio) e, fundamentalmente, às grandes empresas de tecnologia (Big Techs). Essa aliança busca redefinir as saídas da crise global por meio do controle absoluto de novos ativos estratégicos:
Mercadorias tradicionais e recursos naturais: Controle de reservas energéticas (petróleo), minérios críticos (como as terras raras) e fontes de água. A denúncia da tentativa de venda da única indústria brasileira de manufatura/extração de terras raras em Goiás para o capital estadunidense exemplifica a pressão predatória sobre a soberania dos países periféricos.
Controle de Dados e Algoritmos: A captura das infraestruturas digitais e das redes sociais tornou-se o principal instrumento de dominação ideológica e coesão social, disputando “mentes e corações” para viabilizar projetos autocratas e barrar o avanço de alternativas progressistas.
2. GUERRA FINANCEIRA, BRICS E REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA
A disputa entre o projeto hegemônico ocidental e o avanço chinês desdobra-se em duas frentes fundamentais: a financeira e a produtiva.
A Questão Monetária e do Sistema de Pagamentos: O fortalecimento dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e novos membros) como bloco de cooperação econômica enfraquece a hegemonia do petrodólar e cria mecanismos independentes do sistema financeiro controlado por Washington. No plano doméstico, ferramentas como o PIX representaram uma conquista de autonomia do povo brasileiro ao romper o monopólio das bandeiras internacionais de cartão (Visa e Mastercard). Não por acaso, o PIX e as iniciativas de desdolarização sofrem ataques sistemáticos do setor bancário e rentista.
Transformação Industrial e Transição Tecnológica: A capacidade de planejamento estatal e investimento tecnológico da China reorganizou o mercado global, como se observa na rápida expansão dos veículos elétricos. Essa concorrência tem desestabilizado a indústria automobilística ocidental tradicional — evidenciada pelo anúncio de demissões em massa na alemã Volkswagen —, reforçando a urgência de o Brasil promover uma reindustrialização soberana e tecnológica, associada a empregos dignos e à transição ecológica.
3. A AMEAÇA FASCISTA E O PRESIDENCIALISMO DE COALIZÃO AMARRADO NO BRASIL
No plano nacional, a conjuntura é atravessada pela permanência e reorganização da extrema-direita fascista. Figuras como Flávio Bolsonaro e governadores de matriz ultraliberal alinham-se subordinadamente aos interesses estadunidenses, utilizando táticas de contestação das urnas, ataques sistemáticos às instituições democráticas e incentivo à violência política.
A leitura da Intersindical aponta que o Brasil vive sob um presidencialismo fortemente amarrado pelo Congresso Nacional. Apesar da vitória eleitoral do presidente Lula em 2022, o governo encontra-se permanentemente chantageado por um parlamento conservador que sequestra o orçamento público e bloqueia pautas populares.
Esse impasse atinge seu ponto mais crítico no Senado Federal:
A extrema-direita projeta como meta central eleger mais de 48 senadores nas eleições de 2026. Caso alcance essa maioria qualificada, o campo reacionário terá força institucional para destituir ministros progressistas do Supremo Tribunal Federal, impor uma agenda ultraliberal e inviabilizar completamente qualquer margem de governabilidade democrática.
Por essa razão, a disputa pelo Senado ultrapassa as alianças partidárias pontuais e converte-se em uma batalha estratégica pela sobrevivência democrática.
4. AS CONTRADIÇÕES ECONÔMICAS E AS TAREFAS DA CLASSE TRABALHADORA
A análise da plenária também sublinhou de forma franca as limites e contradições vivenciadas pela classe trabalhadora no atual cenário:
Rentismo vs. Desenvolvimento Social: Persiste uma política econômica tensionada pelo capital financeiro, representada pela manutenção de taxas de juros elevadas pelo Banco Central, pelo arcabouço fiscal e pela transferência massiva de riquezas públicas para acionistas (como nos dividendos da Petrobras) e para o agronegócio exportador.
Precarização e Juventude: A ausência de uma revogação integral das reformas trabalhistas passadas e a proliferação do trabalho plataformizado geram frustração, em especial na juventude, que sofre com a falta de perspectivas e empregos de qualidade.
Mobilização pela Escala 6×1: É nesse terreno de precarização que a luta pelo Fim da Escala 6×1 ganha centralidade histórica. Trata-se de uma pauta que unifica a classe, mobiliza a juventude e expressa a disputa direta pelo tempo de vida e pela força de trabalho contra o lobby patronal da FIESP e o bloqueio promovido pelo senador Davi Alcolumbre no Senado.
SÍNTESE E ORIENTAÇÃO POLÍTICA
A Intersindical – Central da Classe Trabalhadora reafirma que a defesa da soberania nacional não é uma abstração ufanista, mas a garantia concreta de que o povo brasileiro possa decidir sobre suas riquezas, seu orçamento, a qualidade do ensino público e a proteção do meio ambiente.
Para enfrentar a ofensiva imperialista e o fascismo nas ruas e nas urnas, a tarefa imediata da militância exige superar o sectarismo sem ceder ao adesismo: organizar comitês populares permanentes nos territórios, dialogar diretamente com as periferias e as igrejas, impulsionar as lutas de massa como o Fim da Escala 6×1 e construir uma ampla unidade política para reeleger o presidente Lula e garantir uma bancada progressista no Congresso e no Senado.
ENCAMINHAMENTOS DEFINIDOS NA PLENÁRIA NACIONAL
1. CAMPANHAS DE MASSA E MOBILIZAÇÃO DE RUA
Luta pelo Fim da Escala 6×1: Priorizar a campanha nacional pelo fim da escala 6×1 e redução da jornada de trabalho sem redução de salários. Intensificar a denúncia pública e a pressão política sobre a FIESP, federações patronais e, especialmente, sobre o senador Davi Alcolumbre, responsável por travar a votação no Senado.
Pressão Direta nos Estados aos Senadores em Reeleição: Realizar atos de agitação e pressão política direta nas bases eleitorais e residências dos senadores que tentarão a reeleição em 2026 e que votam contra os direitos dos trabalhadores (ex.: ato agendado em Santa Catarina na casa do senador Esperidião Amin e ações no RN, RS e ES).
Atos Unificados em Defesa do Serviço Público e Contra Privatizações: Incorporar a Central e mobilizar as bases para os atos e greves estaduais, com destaque para o Ato Unificado em Defesa da Educação e dos Serviços Públicos em São Paulo (28 de agosto), a Marcha dos Trabalhadores Catarinenses (18 de agosto) e as lutas contra a privatização de escolas (RS), metrôs/ferrovias (CPTM/SP, Trensurb/RS) e hospitais.
Construção de Unidade com as Demais Centrais e Frentes: Articular ações conjuntas com as centrais, além das frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, buscando retirar as centrais do imobilismo e levá-las para as ruas de forma permanente.
2. ORGANIZAÇÃO DE BASE E ESTRUTURA PERMANENTE
Criação e Fortalecimento dos Comitês Populares Permanentes: Organizar comitês nos territórios (sindicatos, subsedes, bairros, locais de trabalho e espaços culturais/comunitários como o Comitê Popular Mahin, a Casa Marielle e o Comitê dos Trabalhadores Autônomos). O objetivo é garantir uma estrutura que vá além do período eleitoral, promovendo acolhimento, escuta, formação e disputa de mentes e corações nas periferias.
Organização das Novas Frações do Trabalho: Intensificar a aproximação, acolhimento e organização dos trabalhadores precarizados, em especial os trabalhadores por aplicativo e a juventude precarizada.
Expansão Territorial da Central: Mapear e atuar estrategicamente para ampliar a presença da Intersindical nos estados do Norte e Nordeste onde ainda há lacunas organizativas ou pouca militância estruturada.
3. TÁTICA ELEITORAL PARA 2026
Mobilização pela Reeleição de Lula e Governadores Democráticos: Engajar a militância nos atos públicos e comícios de lançamento e construção da candidatura do presidente Lula e de governadores do campo democrático.
Centralidade na Eleição para o Senado Federal e Câmara dos Deputados: Tratar a eleição de senadores(as) e deputados(as) progressistas e da Frente Ampla como tarefa estratégica central, visando impedir que a extrema-direita obtenha mais de 48 cadeiras no Senado e domine o Congresso Nacional.
Apoio às Candidaturas Próprias e da Esquerda Orgânica: Puxar votos e estruturar apoio militante às candidaturas lançadas pelas forças políticas que compõem a Intersindical e o campo da esquerda para os cargos de deputado federal, estadual e senador nos estados.
4. FORMAÇÃO POLÍTICA E COMUNICAÇÃO
Elaboração de Materiais sobre Soberania e Geopolítica: Encarregar a Secretaria de Formação de produzir cartilhas e materiais explicativos simplificados sobre temas complexos — como Soberania Nacional, Disputa de Terras Raras/Recursos Naturais, Geopolítica/Imperialismo e o Combate às Big Techs — para instrumentalizar o trabalho de base e os comitês.
Sistematização e Difusão de Relatórios: Redigir e enviar o relatório síntese da Plenária Nacional a todas as forças políticas organizadas, sindicatos filiados e bases militantes de todo o país para padronizar a orientação política.
Adequação Técnica de Infraestrutura: Corrigir os limites técnicos das salas virtuais de reunião nas próximas plenárias da direção nacional para garantir o acesso sem restrições a todos os militantes inscritos.
Saudações Intersindicais
São Paulo, 12 de agosto de 2026
Nilza Pereira de Almeida
Secretaria Geral
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