
O Brasil não pode errar de novo. E a escolha que está na mesa tem um rumo econômico muito claro — e perigoso.
Vitor Hugo Tonin
Economista, Doutor em Desenvolvimento Econômico, pesquisador do Instituto de Economia da Unicamp, assessor sindical e delegado do Corecon/SP.
Se Flávio ganhar as eleições, a economia brasileira vai quebrar. E isso não será por acaso; será induzido pelo próprio governo em duas etapas muito claras: primeiro, entraremos em uma desaceleração aguda; em seguida, em uma recessão, provocadas por escolhas políticas dogmáticas e com endereço evidente.
A economia brasileira já dá sinais de desaceleração, o que é inerente ao caráter cíclico das economias capitalistas. Para evitar que essa desaceleração vire uma recessão desastrosa, é preciso agir: alguém tem que “pisar no acelerador” e injetar ânimo na economia.
E quem fará isso? Com certeza não serão os empresários. Como já alertava o economista Michal Kalecki – e como a história das crises no capitalismo comprovam: “Os capitalistas fazem muitas coisas como classe, mas certamente eles não investem como classe.” Quando o cenário aperta, o setor privado retrai. A única saída é um governo proativo, pronto para captar, orientar e impulsionar o investimento, sustentando o emprego e a demanda agregada.
Esse tipo de política é a antítese absoluta do que pensa a turma de Bolsonaro. Eles vão seguir a cartilha do dogmatismo fiscal: o famoso “tesouraço”. É o corte de gastos que eles não podem detalhar neste segundo turno porque sabem que perderiam a eleição.
Mas independentemente de onde recairá o corte, essa retração fiscal significará menos dinheiro circulando, menos demanda e o Estado jogando contra o próprio país. Em vez de conter a desaceleração, eles vão empurrá-la de vez para o buraco da recessão.
Quando a recessão apertar, o desemprego irá subir, podendo dobrar já nos primeiros dois anos de governo. Diante da crise, grandes empresários vão se aproveitar do exército de desempregados para achatar ainda mais os salários e os direitos, tentando compensar a possível queda nas vendas com aumento das margens de lucro.
Por parte do governo, também já sabemos qual será o roteiro. Flávio vai usar a velha tática de culpar o governo anterior, dizendo que “já pegou o país quebrado” e que, por isso, não há escolha a não ser aplicar uma “terapia de choque”, típica dos ajustes neoliberais na periferia do capitalismo.
E qual é a cara dessa terapia de choque?
Do lado do povo: corte de investimentos sociais, com a revisão de programas vitais como o Pé-de-Meia e ataques à Previdência Social. Liberalização de preços administrados, em especial dos combustíveis e do gás de cozinha, com a gasolina podendo subir até 50% — um verdadeiro “tariflávio”.
Do lado dos bilionários: isenção de impostos para o grande empresariado e para os super-ricos, sob a desculpa de que isso vai “atrair investimentos privados” e tirar o país da recessão.
Isso sem falar na entrega automática de nossas riquezas minerais estratégicas (como petróleo e terras raras) à Donald Trump.
O efeito dessa receita desastrosa não é mistério. É exatamente o mesmo roteiro que vimos no Brasil entre 2016 e 2022, e que o ultraliberal Javier Milei está aplicando hoje na Argentina: um prolongamento brutal da recessão, aumento do desemprego, asfixia do consumo interno, piora das condições de vida, destruição dos serviços públicos e aprofundamento da nossa dependência externa.
Com o colapso da renda e a destruição das políticas públicas, o fantasma da fome voltará a assombrar milhões de famílias, empurrando o país de volta ao vergonhoso Mapa da Fome da ONU. Veremos o doloroso regresso de cenas estarrecedoras como a “fila do osso” e de descartes como a pele de frango, retratos cruéis da miséria imposta ao povo.
Esse é o Brasil que o projeto de Flávio nos reserva. Alertar sobre isso agora é o primeiro passo para impedir que esse pesadelo se repita.
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